quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Colônia

Nasceu em Campos, estado do Rio, filho de Libaneses que se perderam a caminho de Foz do Iguaçu. Migrou para Rondônia no inicio dos anos 80 levado pela promessa militar de expansão do norte. Lá, entre cabruncas com plantações de milho, amendoim, feijão, mandioca... Casou com uma nativa, linda índia com medidas perfeitas e inocência inebriante.

Hoje mora no Rio Grande do Norte, com o filho, belo exemplar da mistura inusitada de raças casado com uma mineira, herdeira rica de um cafezal que a vista perde. Construíram uma pousada, na beira mar em São José do Gostoso. Gasta a maior parte do seu tempo sentado na varanda do seu quarto, olhando o mar e tentando saber em qual direção ficam as famosas plantações de Cedros das terras de seus pais.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Rima

E entre eles havia um em especial, um tipo indiano que cumpria a função de garçom durante as tardes, já que as manhãs eram gastas no sono depois de passar as noites servindo as damas solitárias ou os rapazes curiosos em descobrir os prazeres que a mesma carne pode lhes proporcionar. Chamavam-no, os outros, de Rima; talvez por conta da forma especial que pronunciava os "rs": "senhorrrr, precisa de algo mais, senhorrr?". Os outros todos não me atraiam a atenção, eram demasiado comuns, e nas suas organizadas vestimentas, palavras polidas e sentimentos puros, desapareciam entre si.

Rima destoa. Sujo, cutuca o ouvido com o mesmo palito usado para tirar as sobras do almoço de entre os dentes, depois o lança ao chão e cospe de lado, na calçada, enquanto admira os cartazes de filmes pornôs do Cine Ideal. Fala sem mínimo de consciência - como se vomitasse as palavras. Como se elas não passassem pelo cérebro antes de vir a publico.

Eu o observava todas as tardes e noites, exceto quando meu oficio de amolador de tesouras me tomava à atenção. A propósito, permita apresentar-me, Arlindo Maria, seu criado. Datilografo de formação, amolador por necessidade. Nascido poeta de rua como meu pai, morto "de nada" aos 99. Com ele aprendi duas coisas: primeiro, o poeta de rua precisar ter o dom da observação, o dom de "saber-enxergar-os-outros"; segundo, conseqüência natural do primeiro: não pode sair da rua. Por isso eu viajo e observo, escrevendo e amolando.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Seco

Uma cicatriz de mordida de porco nas costas era sua marca. Impressionava, principalmente quando ele caminhava pela rua da feira sem camisa e com uma faca enfiada no vinco traseiro da calça.

Mas era um bom homem, honesto e justo, tanto quanto pode ser um homem. Especialmente naquela terra, onde pela palavra se morre e o contrário.

Era filho de lavradores de terra alheia, ocupação principal, contudo ajudavam na casa sede, faziam mandados na cidade, e outras atividades menos declarantes.

O pai era próximo do Dono, se fartavam juntos de mulheres e cachaça.
A mãe nem sabia que sofria.


Ele e os irmãos, não se lembra quantos, foram criados no "te-vira", ou no "como-deus-quer", dependendo de quem perguntava.

De resto, o chão seco, os galhos secos, a boca seca, só os olhos, de quando em quando, vertiam alguma água.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Atropelo

Hoje, antes de morrer de queda, atropelei um cachorro. Chegamos juntos e ele não sai do meu pé. Ainda não me incomoda, mas sei que irá. Tem dias, como este, que morrer é complicado... O que normalmente é tão facil e simples se transforma em um martírio, e nem cristão sou. Espero morrer melhor amanhã... Sim, amanhã será um dia melhor para morrer. E o Cachorro, espero saia do meu pé.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"Cabamacho"

Otacílio, vulgo Ciço, guitarrista freelancer de banda de forró. Morador do morro "Pau do Urubu", onde nasceu e foi criado. Lá conheceu Matilde, uma branca de cor e preta de vontade. Tinha mamas para alimentar uma nação e ancas que serviam como ponto de referência. Ele se apaixonou. Ela gostou. Se juntaram.
No mês da fogueira, Ciço viajava, dia e noite, tocando seu "pau eletrico", até aquela noite, quando não recebeu a paga pelo show e resolveu debandar antes do fim da festa. Nesse dia ele chegou em casa em hora diferente. Lá encontrou o que segundo os companheiros de cachaça e salão, homem nenhum deveria encontrar: sua mulher trepando com o "Só osso", sujeito despreparado para a vida, bebia tanto que nem sóbrio prestava. Não se sabe nem o nome verdadeiro do individuo, era "Só osso". Avistando aquela cena teve a mais criativa das idéias que um corno pode ter: Sacou do vinte e dois escondido nos fundos da calça, mandou a mulher levantar da cama e pegar o tubo de "colatudo".
"Só osso" nem murchou, ainda tava de pau duro quando a mulher, com a mão empapada da cola, agarrou, e lá ficou.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aventurança.

Nascido órfão na Rua da Areia.
Mãe, ex-prostituta e cozinheira de puteiro, morta no parto; pai, desconhecido. Levado para um orfanato em um terreiro de umbanda - promessa feita pela mãe de santo: cuidar de 99 crianças abandonadas. Ela mesma, a mãe de santo, uma morena reboculosa casada com um italiano do sul, que batizou a criança: Pio.
Cresceu, se criou, virou escrivão da policia civil. Bebia pouco, comia pouco, pensava pouco. Um dia foi encontrado pendurado pelo pescoço na viga que sustentava o teto do seu quarto. Quem o encontrou, ainda com o corpo estrebuchando, foi a diarista, Dona Esperança, que naquele dia chegara tarde.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Vida de boneca

Acordou as nove.
Tivera uma noite excelente: amor, papo, um bom vinho e ainda dormira cedo.
Irá correr no calçadão da praia, bem próximo a sua casa...
Alonga na academia do prédio, onde ainda tem uma boa piscina e duas saunas, coloca o fone do mp3 no ouvido e segue ouvindo Ed Mota.
Pensa em como o ano foi bom, seu filho se recuperara daquele problema sério de saúde, seu marido estava mais companheiro do que nunca, e ela tinha reconquistado a vaga de chefia que havia perdido no ano passado quando teve que parar tudo pra cuidar do filho doente.
A noite iria encontrar os amigos na casa da mãe, que estava muito bem depois da morte simples e sem dor que o pai tivera, ela se recuperara bem da ausência dele.
Sua satisfação fazendo esse balanço enquanto corria na calçada com a brisa do mar e o silencio que só era possível naquela parte privativa da praia, era imensa, suas mãos chegavam a suar e corria um pouco mais quando pensava em quanto sua vida estava boa naquele exato momento.
Era domingo, já correra seus trinta minutos e iria preparar um bom e completo café da manhã, acordar o filho e levar na cama para o pai. Depois, juntos, iriam ao Shooping nalguma livraria onde os três se perderiam entre os livros durante algumas horas, ao cinema ver um bom filme de animação, e, antes de irem pra casa da sua mãe, um almoço em um desses restaurantes naturais. Enfim, seria um domingo perfeito, como tinha sido todo o ano que passou.
Perdida em pensamentos, atravessa a rua principal que liga o calçadão a calçadinha... nem nota o caminhão, e creio que nunca notará.... seu corpo foi atirado, sem vida, a pancada já havia determinado a hora da morte, caiu a uns 10 metros, como uma daquelas famosas bonecas norte-americanas largada sozinha no fundo da caixa de brinquedos depois que lhe arrancaram as pernas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Indivíduos originais, ou originários?

Que gente é essa que ainda vem ao aeroporto assistir a pousos e decolagens? Que gente simples é essa que nos faz sentir seguros e protegidos? Que o critica com cuidado e ruidosamente o elogiam, com orgulho de ser seu amigo. Chegam até te convencer das qualidades que, você sabe, não possui. Ou eles estão certos? Será essa a gente originaria que precisamos reencontrar em nós?

Indivíduo I.

Não, não foi assim que aconteceu. Aconteceu como sempre acontece: dores iniciais, fraqueza e falta de vontade. Exames, exames e mais exames que formam uma pilha. Só de tempo em fila foram dois meses e meio. Olhei um a um com preocupação autêntica, a rotina diária era cheia dessas pilhas. Isso de olhar um a um tomou mais mês e meio. Olhava sempre tudo, não como o reconhecimento do esforço do paciente em fazer todos os exames que pedi, mas para não correr o risco de iludir com vida, o que, às vezes, só a morte alivia. Apesar de que, na maioria das vezes, no primeiro exame eu já sabia o tempo que restava, se toda a vida ou parte dela, e nesse caso, parte dela seria ela toda, a vida.
Depois da pilha examinada, a história das entranhas de minha paciente contada, a palavra que, como médico, me frustra dizer, mas como indivíduo não me faz a mínima diferença:
- Seis meses, talvez um ano, se cuidando direitinho até mais que isso.
E a surpreendente e incomum pergunta dessa sexagenária senhora:
- Doutor, o Senhor está incluindo aí, nessa conta, os quatro meses que levaram para juntar e olhar os exames?

Agora ela não sai do meu pensamento. Isso não é comum, porque normalmente bastaria uma saída e entrada no consultório, com o paciente me esperando, para esquecê-lo. Acho que foi por conta da pergunta que me fez, ou talvez tenha sido a sua reação anormal à notícia que lhe dei, ela não chorou, não se desesperou nem pediu pra ficar sozinha ou desmaiou, movimentos comuns de quem recebe essa notícia, isso eu posso garantir. Simplesmente, sem titubear, me fez aquela pergunta, como se já soubesse qual seria a minha fala e já tivesse a sua na ponta da língua, esperando a minha deixa.

Penso nela chegando em casa, sem ninguém pra falar, dividir. Dividir o quê? O fim? Eu acho que a única dor que pode ser realmente dividida é a dor do inicio, do inicio mesmo. A dor do parto dividida entre quem da e quem recebe a vida. E dói receber a vida, principalmente porque somos obrigados a aceitar e não temos a mínima idéia de como ela será. Se soubéssemos o caminho que iríamos tomar, em que iria dar esse encontro, se houvesse a possibilidade de não aceitar, creio que pensaríamos duas vezes antes de concordar com essa corrida sem vencedores ou vencidos e sem prêmio. Eu, por minha parte, pensaria bastante. Mas, como podemos evitar? Quem deveria evitar eram os outros. Esse é um dos grandes problemas do nosso pessoal, não temos escolha, temos de aceitar o que nos é imposto: a vida. E pior, ela nos é tirada da mesma forma que nos foi dada: sem pedir permissão, na maioria das vezes. Mas também podemos decidir, por conta própria, a hora em que vamos acabar com ela. A vida nos é imposta, mas, da morte somos sócios. Contudo podemos perder o direito nessa sociedade, por completo, basta procriamos, basta emprestar nosso corpo a outro e criarmos uma nova consciência, e essa nova consciência vai ser o único pedaço do infinito fora de nós, e teremos prazer nessa dependência. Num tipo de tentativa natural de imortalidade escolhemos a vida - e qual tentativa nesse sentido não seria natural? - Somente assim somos responsáveis pelo futuro: quando colocamos um filho no mundo. Esse filho vai ser a paga pela perda do direito de finalizar a vida que nos foi imposta. Procriar anula o nosso direito de exercer a morte porque exercemos o direito de escolher a vida, por decisão própria. E agora, depois de termos feito nossa escolha pela vida, o que importa é ficarmos atentos ao acaso. Agora temos que tentar não faltar. Escolhas e responsabilidades.

Imagino-a sentando no sofá. Tentando não pensar. Liga a TV e vê o judeu manco repetir mais uma vez: “Isso, é, uma, vergonha!” Torce para entrar um ladrão armado e acabar logo com essa história. Assim, o fim seria fruto do acaso, fruto colhido e esmagado pelo acaso, e não essa espécie de plano genético de autodestruição que nosso organismo trama. Mas qual é a diferença entre outro ou esse inquilino residente em nós nos matar? Pra que criar se pretende destruir? Pra que enganar, falando em vida eterna, se só o que nos cabe é a nossa própria eternidade em vida? Com certeza, diria para ela não pensar muito sobre essas coisas, e, de mais a mais, esse jornalista é um chato, vergonha é assisti-lo disfarçar seu rancor histórico-cultural em um tipo de intelectualismo vendido. Diria para ir dormir - afinal eu sou seu médico - porque no outro dia, se houver outro, será mais um, ou pelo menos algumas horas dele.
Na realidade não sei bem porque me perco em pensamentos que vão alem do estado clinico dessa mulher, que não sou eu. Creio que o que me incomoda é essa expectativa de término inacabado, a não conclusão. Mas nunca há uma conclusão. Nossa vida é sempre um extrato da combinação do infinito que há em nós com o finito que são os outros. Isso me angustia. É como um iogurte em promoção no mercado, com a data de validade sempre chegando ao fim, não sabe se é melhor ser consumido ou se abandonar ao estrago.
- Bom dia, foi ao médico ontem?
A mesma pergunta dos últimos doze meses, a mesma resposta:
- Sim.
Em conseqüência da primeira, a segunda pergunta:
- E o que ele disse?
E só agora a resposta definitiva. A dúvida sobre contar não me incomodava mais, não era uma questão de buscar algum tipo de alívio ou apoio, era somente informar, como um comunicado de despejo ou de aprovação em concurso público.
Com tom burocrático, respondo:
- Disse que tenho um pouco mais de seis meses de vida.
A resposta, sem rodeios e dores, esperava por uma reação em forma de desmaio ou um choro sentido, de verdade, mas esse sentimento não é meu, é dela. Mesmo assim, mudo para um tom consolador:
- Não chora! Estou buscando força em quem sempre me deu, se você desabar, eu vou desistir mais cedo.
Falei porque sabia que essas palavras surtiriam o efeito necessário, e o choro sentido, que me incomodava, iria parar.
De repente vem de fora a pergunta que estou escondendo de mim, e que lateja querendo a resposta que escondo para não ouvir:
- E agora?
Penso. Penso e visualizo a resposta que se mostra em um emaranhado de outras questões: Não sei, não tenho motivo algum para continuar vivendo, porém não gostaria de parar de viver; não tenho motivo algum para ter medo do que virá, mas curiosidade também não; não tenho motivos que me prendam à vida difícil e maltratada que levo, porém talvez eu perca a melhor parte dela, a parte em que meus sonhos se tornam realidade e vivo uma vida mais feliz, quando as minhas maiores preocupações não passarão do questionamento sobre o tempo, se guarda-chuva, ou sol. Enfim o futuro melhor que busco. A felicidade alcançada. Talvez eu perca o que não alcancei ainda. Mas esse “não-alcançar” não seria justamente o que me move? Nesse sentido é um alívio saber que não vou durar muito, pelo menos já sei qual o futuro que me espera: nenhum. O que me incomoda é a falta de tempo para realizar sonhos. Preciso me adaptar a um futuro de seis meses. Preciso de planos adaptáveis, preciso sonhar. Porque senão duro menos tempo ainda.
Preferi não responder. Ainda não há resposta a ser dada.

- Vou preparar um café pra você. Fica aí. Já volto.
O anúncio do café me trouxe à realidade, a realidade das simplicidades, das pequenas alegrias, as únicas que são possíveis em nossos dias. A realidade feliz das pequenas realizações, dos pequenos acontecimentos, dos pequenos prazeres, como um café fresco e doce.
De repente, sentindo o cheiro gostoso de café, me vem lembranças de um dia, uma época boa, um passado contente, um momento qualquer que não se perdeu. A felicidade em mim ficou gravada no cheiro de café e sou tomada por ela. Sinto-me totalmente esvaziada de mim. Nesse estado, como uma iluminação, me ocorre uma certeza simples e tardia: “A única coisa que me resta é a morte.” Balbuciei.
É. É só isso que tenho, ou é só isso que tive, desde sempre, porém não tão definida e clara, com prazo, motivo e tudo mais. O que fazer com isso, o que fazer com essa informação que me faz sentir superior, um super-humano. Poucos têm a oportunidade de saber a data do fim, a data do único acontecimento definido do futuro. Talvez por isso tenhamos tanto temor, e agora penso o quanto terrível pode ser não saber se morreremos daqui a dez minutos ou cinqüenta anos. De repente tomo consciência de que o que me atormentava não é saber que sou finita, mas é não saber quando se concretizará essa minha finitude. Por mais paradoxal que seja, sinto que venci a mortalidade. Sou imortal. Sinto-me imortal. Em mim a resposta já veio, e a resposta só é válida em mim, e só serve para mim, como tem de ser. Sinto meu coração pular no peito; o sangue, que corria em ritmo inalterado à décadas, acelera pelas veias; os pés e mãos suados; uma vontade de caminhar, sorrir, ver o sol, me voltar para o sol e receber seu calor, sua luz, sua vida e as possibilidades que nos oferece quando surge novamente no horizonte finito. Uma sensação de tranqüilidade total, de felicidade incondicional, de liberdade absoluta, de saber que sei o término do meu prazo de validade – a sensação de saber que sabe é melhor do que o próprio saber em si. Um alívio pensar no esvaziamento do meu futuro. Não haveria mais angústia, medo, dor, traição, decepção, culpa, incerteza. Agora há somente eu e o meu fim.
Mas isso tudo são sensações. Ainda resta em mim a incerteza sobre o que me reserva a eternidade antes do por do sol.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Indivíduo livre

Creio que não somos e nunca seremos livres, o homem pensa, acumula, passa, o outro recebe o que não pediu e continua passando, geração a geração... Diria: “que apareçam os que vieram antes, e bem antes, quero devolver-lhes o fardo e seguir livre”. Porem não há quem ouça...