Não, não foi assim que aconteceu. Aconteceu como sempre acontece: dores iniciais, fraqueza e falta de vontade. Exames, exames e mais exames que formam uma pilha. Só de tempo em fila foram dois meses e meio. Olhei um a um com preocupação autêntica, a rotina diária era cheia dessas pilhas. Isso de olhar um a um tomou mais mês e meio. Olhava sempre tudo, não como o reconhecimento do esforço do paciente em fazer todos os exames que pedi, mas para não correr o risco de iludir com vida, o que, às vezes, só a morte alivia. Apesar de que, na maioria das vezes, no primeiro exame eu já sabia o tempo que restava, se toda a vida ou parte dela, e nesse caso, parte dela seria ela toda, a vida.
Depois da pilha examinada, a história das entranhas de minha paciente contada, a palavra que, como médico, me frustra dizer, mas como indivíduo não me faz a mínima diferença:
- Seis meses, talvez um ano, se cuidando direitinho até mais que isso.
E a surpreendente e incomum pergunta dessa sexagenária senhora:
- Doutor, o Senhor está incluindo aí, nessa conta, os quatro meses que levaram para juntar e olhar os exames?
Agora ela não sai do meu pensamento. Isso não é comum, porque normalmente bastaria uma saída e entrada no consultório, com o paciente me esperando, para esquecê-lo. Acho que foi por conta da pergunta que me fez, ou talvez tenha sido a sua reação anormal à notícia que lhe dei, ela não chorou, não se desesperou nem pediu pra ficar sozinha ou desmaiou, movimentos comuns de quem recebe essa notícia, isso eu posso garantir. Simplesmente, sem titubear, me fez aquela pergunta, como se já soubesse qual seria a minha fala e já tivesse a sua na ponta da língua, esperando a minha deixa.
Penso nela chegando em casa, sem ninguém pra falar, dividir. Dividir o quê? O fim? Eu acho que a única dor que pode ser realmente dividida é a dor do inicio, do inicio mesmo. A dor do parto dividida entre quem da e quem recebe a vida. E dói receber a vida, principalmente porque somos obrigados a aceitar e não temos a mínima idéia de como ela será. Se soubéssemos o caminho que iríamos tomar, em que iria dar esse encontro, se houvesse a possibilidade de não aceitar, creio que pensaríamos duas vezes antes de concordar com essa corrida sem vencedores ou vencidos e sem prêmio. Eu, por minha parte, pensaria bastante. Mas, como podemos evitar? Quem deveria evitar eram os outros. Esse é um dos grandes problemas do nosso pessoal, não temos escolha, temos de aceitar o que nos é imposto: a vida. E pior, ela nos é tirada da mesma forma que nos foi dada: sem pedir permissão, na maioria das vezes. Mas também podemos decidir, por conta própria, a hora em que vamos acabar com ela. A vida nos é imposta, mas, da morte somos sócios. Contudo podemos perder o direito nessa sociedade, por completo, basta procriamos, basta emprestar nosso corpo a outro e criarmos uma nova consciência, e essa nova consciência vai ser o único pedaço do infinito fora de nós, e teremos prazer nessa dependência. Num tipo de tentativa natural de imortalidade escolhemos a vida - e qual tentativa nesse sentido não seria natural? - Somente assim somos responsáveis pelo futuro: quando colocamos um filho no mundo. Esse filho vai ser a paga pela perda do direito de finalizar a vida que nos foi imposta. Procriar anula o nosso direito de exercer a morte porque exercemos o direito de escolher a vida, por decisão própria. E agora, depois de termos feito nossa escolha pela vida, o que importa é ficarmos atentos ao acaso. Agora temos que tentar não faltar. Escolhas e responsabilidades.
Imagino-a sentando no sofá. Tentando não pensar. Liga a TV e vê o judeu manco repetir mais uma vez: “Isso, é, uma, vergonha!” Torce para entrar um ladrão armado e acabar logo com essa história. Assim, o fim seria fruto do acaso, fruto colhido e esmagado pelo acaso, e não essa espécie de plano genético de autodestruição que nosso organismo trama. Mas qual é a diferença entre outro ou esse inquilino residente em nós nos matar? Pra que criar se pretende destruir? Pra que enganar, falando em vida eterna, se só o que nos cabe é a nossa própria eternidade em vida? Com certeza, diria para ela não pensar muito sobre essas coisas, e, de mais a mais, esse jornalista é um chato, vergonha é assisti-lo disfarçar seu rancor histórico-cultural em um tipo de intelectualismo vendido. Diria para ir dormir - afinal eu sou seu médico - porque no outro dia, se houver outro, será mais um, ou pelo menos algumas horas dele.
Na realidade não sei bem porque me perco em pensamentos que vão alem do estado clinico dessa mulher, que não sou eu. Creio que o que me incomoda é essa expectativa de término inacabado, a não conclusão. Mas nunca há uma conclusão. Nossa vida é sempre um extrato da combinação do infinito que há em nós com o finito que são os outros. Isso me angustia. É como um iogurte em promoção no mercado, com a data de validade sempre chegando ao fim, não sabe se é melhor ser consumido ou se abandonar ao estrago.
- Bom dia, foi ao médico ontem?
A mesma pergunta dos últimos doze meses, a mesma resposta:
- Sim.
Em conseqüência da primeira, a segunda pergunta:
- E o que ele disse?
E só agora a resposta definitiva. A dúvida sobre contar não me incomodava mais, não era uma questão de buscar algum tipo de alívio ou apoio, era somente informar, como um comunicado de despejo ou de aprovação em concurso público.
Com tom burocrático, respondo:
- Disse que tenho um pouco mais de seis meses de vida.
A resposta, sem rodeios e dores, esperava por uma reação em forma de desmaio ou um choro sentido, de verdade, mas esse sentimento não é meu, é dela. Mesmo assim, mudo para um tom consolador:
- Não chora! Estou buscando força em quem sempre me deu, se você desabar, eu vou desistir mais cedo.
Falei porque sabia que essas palavras surtiriam o efeito necessário, e o choro sentido, que me incomodava, iria parar.
De repente vem de fora a pergunta que estou escondendo de mim, e que lateja querendo a resposta que escondo para não ouvir:
- E agora?
Penso. Penso e visualizo a resposta que se mostra em um emaranhado de outras questões: Não sei, não tenho motivo algum para continuar vivendo, porém não gostaria de parar de viver; não tenho motivo algum para ter medo do que virá, mas curiosidade também não; não tenho motivos que me prendam à vida difícil e maltratada que levo, porém talvez eu perca a melhor parte dela, a parte em que meus sonhos se tornam realidade e vivo uma vida mais feliz, quando as minhas maiores preocupações não passarão do questionamento sobre o tempo, se guarda-chuva, ou sol. Enfim o futuro melhor que busco. A felicidade alcançada. Talvez eu perca o que não alcancei ainda. Mas esse “não-alcançar” não seria justamente o que me move? Nesse sentido é um alívio saber que não vou durar muito, pelo menos já sei qual o futuro que me espera: nenhum. O que me incomoda é a falta de tempo para realizar sonhos. Preciso me adaptar a um futuro de seis meses. Preciso de planos adaptáveis, preciso sonhar. Porque senão duro menos tempo ainda.
Preferi não responder. Ainda não há resposta a ser dada.
- Vou preparar um café pra você. Fica aí. Já volto.
O anúncio do café me trouxe à realidade, a realidade das simplicidades, das pequenas alegrias, as únicas que são possíveis em nossos dias. A realidade feliz das pequenas realizações, dos pequenos acontecimentos, dos pequenos prazeres, como um café fresco e doce.
De repente, sentindo o cheiro gostoso de café, me vem lembranças de um dia, uma época boa, um passado contente, um momento qualquer que não se perdeu. A felicidade em mim ficou gravada no cheiro de café e sou tomada por ela. Sinto-me totalmente esvaziada de mim. Nesse estado, como uma iluminação, me ocorre uma certeza simples e tardia: “A única coisa que me resta é a morte.” Balbuciei.
É. É só isso que tenho, ou é só isso que tive, desde sempre, porém não tão definida e clara, com prazo, motivo e tudo mais. O que fazer com isso, o que fazer com essa informação que me faz sentir superior, um super-humano. Poucos têm a oportunidade de saber a data do fim, a data do único acontecimento definido do futuro. Talvez por isso tenhamos tanto temor, e agora penso o quanto terrível pode ser não saber se morreremos daqui a dez minutos ou cinqüenta anos. De repente tomo consciência de que o que me atormentava não é saber que sou finita, mas é não saber quando se concretizará essa minha finitude. Por mais paradoxal que seja, sinto que venci a mortalidade. Sou imortal. Sinto-me imortal. Em mim a resposta já veio, e a resposta só é válida em mim, e só serve para mim, como tem de ser. Sinto meu coração pular no peito; o sangue, que corria em ritmo inalterado à décadas, acelera pelas veias; os pés e mãos suados; uma vontade de caminhar, sorrir, ver o sol, me voltar para o sol e receber seu calor, sua luz, sua vida e as possibilidades que nos oferece quando surge novamente no horizonte finito. Uma sensação de tranqüilidade total, de felicidade incondicional, de liberdade absoluta, de saber que sei o término do meu prazo de validade – a sensação de saber que sabe é melhor do que o próprio saber em si. Um alívio pensar no esvaziamento do meu futuro. Não haveria mais angústia, medo, dor, traição, decepção, culpa, incerteza. Agora há somente eu e o meu fim.
Mas isso tudo são sensações. Ainda resta em mim a incerteza sobre o que me reserva a eternidade antes do por do sol.